Eu estava na primeira série do ensino fundamental. Era o início da década de 1990. Minha professora era a Dona Marisa. Infelizmente, já não me lembro mais do seu rosto. A memória apagou seus traços, mas não apagou a lembrança de que eu gostava muito dela. Eu era um bom aluno e me sentia à vontade naquela sala de aula.

Uma das poucas recordações que guardo daquele tempo envolve uma conversa séria que tive com ela.

Naquela época passava na televisão a versão mexicana de Carrossel. Eu gostava muito da novela. Nem lembro bem como conseguia assisti-la, porque na minha casa o canal que transmitia a novela pegava muito mal. Mesmo assim, eu não perdia um capítulo.

Na minha cabeça de criança, aquele universo parecia muito próximo. As histórias da escola, os alunos, os professores, tudo aquilo parecia fazer parte de um mundo possível.

Um dia, durante uma conversa na sala de aula, mencionei Carrossel. Não me lembro exatamente o que eu disse antes. Mas lembro perfeitamente do que falei no final.

Com a confiança que só as crianças têm, olhei para Dona Marisa e declarei:

— Minha mãe vai me levar para fazer teste em Carrossel.

Eu falei aquilo com absoluta convicção. Para mim, não havia dúvida nenhuma. Era apenas uma questão de tempo.

Dona Marisa me olhou com um certo espanto. Talvez pela segurança com que eu falava, talvez pela fantasia que ela sabia que não iria se cumprir.

Ela respondeu apenas:

— Vai sim.

E seguiu com a aula.

Naquele momento eu não percebi nada de estranho. Para mim, tudo continuava perfeitamente possível. O teste viria, a novela também, e eu talvez aparecesse na televisão.

O tempo passou, claro. O teste nunca aconteceu. Eu nunca fui para Carrossel. A vida seguiu outros caminhos, muito mais comuns do que aquele que eu imaginava na primeira série. E hoje, que ironia: apesar de ser jornalista, tenho pavor de televisão.

Mas a lembrança daquela conversa ficou.

Hoje percebo que aquela resposta da Dona Marisa não foi ironia nem deboche. Foi apenas o jeito mais gentil que uma professora encontrou para lidar com o sonho confiante de um menino.

E talvez exista algo bonito nisso.

Porque a infância tem essa capacidade rara: a de acreditar com absoluta certeza em coisas que os adultos já aprenderam a considerar impossíveis.

Naquele dia, dentro daquela sala de aula, eu era apenas um menino muito confiante.

E muito ingênuo.

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