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  Na sociedade atual, ser bom não é suficiente. Você pode não prejudicar ninguém, evitar o mal, tentar agir com integridade. Em tese, isso seria o ápice da virtude. Na prática, muitas vezes é visto como fraqueza. Como ingenuidade. Como idiotice. Lembra o príncipe Míchkin, de O Idiota , de Dostoiévski. Por isso, estou sempre em alerta. Quando baixo a guarda, a resposta costuma ser dura. As pessoas podem ser cruéis. Se você não está preparado, passam por cima. Exploram essa virtude para humilhar, ignorar ou simplesmente desrespeitar. E não são grandes acontecimentos. São situações banais. Uma mochila deixada em uma sala de imprensa. Uma grosseria em uma situação simples no dia a dia do trabalho. Um descaso em um hospital. Pequenas coisas que mostram algo maior. Talvez o problema não seja a bondade. Talvez seja o olhar que a sociedade lançou sobre ela. E, no fim, quem tenta ser correto acaba sendo visto como o idiota da história.  
  Nesta semana, recebi o Prêmio Especial do Anuário Estatístico do 19º Prêmio Abracopel de Jornalismo. É a segunda vez, em três anos, que isso acontece. Já foram outros reconhecimentos também. Trabalhos ao lado de grandes veículos, menção honrosa, algumas vitórias. Tudo isso é importante. Sempre foi. Mas, desta vez, foi diferente. No fim do ano passado, minha mãe teve dois infartos. Foram dias longos. Hospital, exames, incerteza. Noites mal dormidas. A cabeça sempre longe de qualquer outra coisa. Eu perdi mais de dez quilos nesse período. Não por escolha. Foi o corpo reagindo ao medo. E o medo era simples. Perder minha mãe. A mesma que sempre fez tudo por mim. Por isso, quando recebi esse prêmio, não pensei em números, nem em veículos, nem em currículo. Pensei nela. Em tudo o que ela passou. Em tudo o que ainda está passando. Em tudo o que ela sempre fez por mim, mesmo quando eu não entendia. Esse prêmio é para ela. E por ela.
 Às vezes, o valor entre a recuperação e a preocupação é de apenas alguns reais. Os últimos dias foram complicados. Fiquei mais de 24 horas sem dormir, com muitas idas ao hospital e médicos vacilantes — não por incompetência, mas mais por inexperiência. Mesmo assim, tudo está dando certo e minha mãe está muito melhor. E a melhora veio com um remédio simples: a furosemida, um diurético. Ele expulsou o líquido do pulmão pela urina. O cansaço desapareceu tão logo começou a ser administrado. E o remédio custa menos de R$ 4. Um valor tão irrisório para uma vida tão preciosa.
Uma noite interminável  A noite do dia 6 de março não enganava. Minha mãe também não. Eu queria dormir com ela, mas ela negava, mesmo estando na minha casa. Insisti e fiquei ao lado dela, com Tetê, minha filha, na cama ao lado. A respiração estava forte. O calor era excessivo. O cansaço aparecia cada vez que ela ia ao banheiro. O sono não vinha, nem para ela, muito menos para mim. Quase duas horas da manhã. Pego uma dipirona. Faço um chá de erva-doce para ela tentar relaxar. Mas tudo piora. Mesmo com o ar-condicionado marcando 20 °C, o calor se torna insuportável para ela e o suor se transforma em uma cachoeira. Voltamos ao hospital, onde já havíamos ido uma semana antes. Meu coração sangra. Mas eu sei: vamos sair dessa de novo.
 Eu estava na primeira série do ensino fundamental. Era o início da década de 1990. Minha professora era a Dona Marisa. Infelizmente, já não me lembro mais do seu rosto. A memória apagou seus traços, mas não apagou a lembrança de que eu gostava muito dela. Eu era um bom aluno e me sentia à vontade naquela sala de aula. Uma das poucas recordações que guardo daquele tempo envolve uma conversa séria que tive com ela. Naquela época passava na televisão a versão mexicana de Carrossel . Eu gostava muito da novela. Nem lembro bem como conseguia assisti-la, porque na minha casa o canal que transmitia a novela pegava muito mal. Mesmo assim, eu não perdia um capítulo. Na minha cabeça de criança, aquele universo parecia muito próximo. As histórias da escola, os alunos, os professores, tudo aquilo parecia fazer parte de um mundo possível. Um dia, durante uma conversa na sala de aula, mencionei Carrossel . Não me lembro exatamente o que eu disse antes. Mas lembro perfeitamente do que falei n...
 Não sei por que ainda escrevo aqui. Ninguém lê. Ninguém se importa. Ninguém sabe que este blog existe. Mesmo assim, continuo. Talvez porque escrever seja uma forma de encontrar alguma força. Ou talvez porque eu queira deixar algo que prove que tive uma existência. Mas não sei. Se um dia alguém descobrir estas páginas, talvez encontre apenas isso: mais um. Alguém que não fez diferença. Um daqueles que quis muito, mas quase nada teve.
 Eu odeio você, lúpus. Você apareceu no pior momento das nossas vidas. Minha mãe, uma mulher batalhadora, já lutava contra um processo injusto, fruto de um erro que não era dela. Como se aquilo já não bastasse, você chegou. E se apoderou de tudo. Tentou destruir nossa família. Não conseguiu. Mas deixou marcas profundas. Perdemos o apartamento, sim. Eu saí da faculdade de Engenharia, sim. A saúde da minha mãe se deteriorou, sim. Você levou muita coisa. Mas falhou no mais importante. O meu amor por ela só aumentou. Cada dificuldade, cada noite de hospital, cada exame, cada remédio caro apenas me mostrou ainda mais quem ela é: uma mulher forte, que sempre se sacrificou pelos filhos e que nunca mereceu carregar um peso como esse. Por isso eu repito, sem medo algum: Eu odeio você, lúpus. Odeio por tudo o que você nos tirou. Mas você nunca conseguiu tirar o que mais importa: o amor puro, sincero e verdadeiro pela minha querida mãe.