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Mostrando postagens de fevereiro, 2026
 Era apenas um jovem, cheio de sonhos. Um menino de quinze anos que queria estar com os amigos. Ao mesmo tempo, carregava o desejo de jogar futebol. Mas seus amigos não tinham o mesmo sonho. E, para ter um espaço entre eles, ele entrou na banda de música. Aprendeu trompete. Seu sopro era lindo e forte, embora tivesse dificuldade com a teoria. Ainda assim, tinha potencial para evoluir. Entretanto, as coisas nunca foram fáceis para o menino. Desde cedo, o presidente da banda do Centro implicava com ele. Para piorar, o garoto tinha o mesmo nome do filho desse crápula. Tocavam o mesmo instrumento. O trompete era da mesma marca e do mesmo modelo. Coincidências? Talvez não. Talvez, apenas o destino. Entre tantos episódios lamentáveis, nenhum marcou mais do que aquela noite no Palácio das Artes. Um homem com mais de quarenta anos puxando um menino que ainda não havia completado quinze, gritando com ele e fazendo um escândalo. Ali começou um hiato de quatro anos longe da música e um fer...
Iludido Quem és tu, leitor, que a ilusão é tanta que não és capaz de compreender o teu ser? És um frustrado ou um bem-sucedido? Não sei e, por esse motivo, dou-me o direito de especular. A única coisa que sei é que recriminas a humilde alma que vos escreve. O maior escritor brasileiro de todos os tempos, no clássico  Memórias Póstumas de Brás Cubas , uma vez te advertiu. Porém, como estavas no teu Olímpio, a recomendação passou despercebida. A tua pressa em envelhecer  é grande, no entanto, o meu estilo é devagar como uma tartaruga. Meu texto te irritas, mas ,  ao mesmo tempo,  faz aumentar ainda mais o teu ego. Tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, entretanto, o meu estilo é como os  bêbados , que tombam à direita e à esquerda. Andam e param. Resmungam, urram, gargalham (muitas vezes de ti), ameaçam o céu e a terra e, às vezes, escorregam e caem em um abismo sem fim. Entretanto, como és presunçoso, a tua arrogância prevalece. Rirás de...
 Primeiro, comprei uma mochila rosa da Company para minha mãe. Depois, um tênis Asics, também rosa. Isso tudo foi em 2025, pouco antes do seu aniversário de 67 anos. Minha mãe é, de longe, a melhor pessoa do mundo. Mas a vida não soube recompensá-la. E eu, por muito tempo, não tive noção da sua grandeza nem de tudo o que ela fez por nossa família. Esses simples presentes tinham o intuito de me levar de volta à década de 1990, mais precisamente à sua segunda metade.  Ela estava linda, tinha dois empregos e eu e meus irmãos tínhamos uma vida confortável. Nos anos 2000, tudo mudou. As coisas ficaram mais difíceis e, infelizmente, eu não consegui compreender. Até tentei ajudar, mas acabei piorando a situação. Veio a perda do apartamento, o diagnóstico de uma doença autoimune. Mas o que nunca faltou foi o seu amor pela família e a sua grandeza como mulher.  Por isso, eu queria voltar àquela época em que ela se arrumava, colocava a mochila Company e o tênis Asics e ia trabalh...
 Um blog sem visitas, um pretenso escritor sem público. Talvez esse seja o pior dos males de alguém que deseja ser reconhecido por um talento que gostaria de ter, mas que claramente não possui. Continuo aqui. Quem sabe, daqui a centenas de anos, alguém possa ler essas pobres linhas e me revelar ao mundo. Embora eu creia que isso seria um milagre. Pois, sem talento, o público não vem, tampouco a glória. É o triste fim de um Policarpo Quaresma qualquer. Se ao vencedor cabem as batatas, ao vencido resta a compaixão de um declínio anunciado.
Constatação de uma tarde de verão em uma cidade histórica de Minas Gerais. Era para ser um dia especial: fui classificado com três conteúdos para um prêmio nacional da minha profissão. Mas… Estou cansado e desanimado. Não cumpri minhas expectativas e não realizei meus sonhos. Conquistei algumas coisas, mas elas me parecem mínimas. De resto, tudo o que quis, perdi. Sou um fracasso. Não consegui proporcionar uma vida melhor para minha mãe. Não consigo ser um exemplo para meus filhos. Não sou um bom marido para minha esposa. Não sou o profissional que sempre desejei me tornar. São falhas em todos os setores da vida, um retumbante fracasso ambulante. Que vida frustrante e patética.
A raiva é um sentimento difuso e, infelizmente, muito presente em mim. Tenho muita raiva do que já fizeram comigo, do que fizeram com minha mãe, com minha irmã e com outros familiares. Por isso, muitas vezes, prefiro me isolar. Porque, quando ela vem, eu perco o controle. No domingo de Carnaval de 2026, senti isso com intensidade. Vi uma das pessoas que mais me fez mal quando eu ainda era um garotinho. O sentimento tomou conta. Lembrei-me dele me segurando pelo braço e gritando comigo na frente de todo mundo, no Palácio das Artes, logo após uma apresentação. A partir desse episódio, que não havia sido o primeiro, saí da banda. Hoje, tenho a idade que esse homem tinha quando fez essas coisas comigo. Fui atrás dele para perguntar se teria coragem de segurar o meu braço agora. Infelizmente, perdi-o no meio da multidão. Mas isso ainda vai acontecer. Vou tirar isso a limpo. Não vai me curar, mas talvez me traga um pouco de alívio.
Sempre achei que seria especial. Mas essa característica nunca se materializou. Infelizmente, sempre fui apenas mais um. Às vezes, achava que era muito bom em algo. Mas, nessas coisas, nunca houve reconhecimento. Em outras, nas quais pensava ser medíocre, até cheguei a receber algum reconhecimento. E isso é terrível, porque torna a caminhada complexa e tira o ânimo de seguir aquilo que eu acreditava fazer bem, empurrando-me a seguir caminhos que outras pessoas queriam para a minha vida. Essa sempre foi uma dualidade muito complexa para mim. Afastou-me de muitos sonhos e de muitas pessoas, pessoas que também tiveram papel central nas minhas decisões e naquilo em que me tornei. Muitas delas foram pesos consideráveis nos meus sentimentos: o presidente da banda de música, que descontava suas frustrações e seu racismo exacerbado em mim; o chefe cruel que quase me fez desistir de ser jornalista; ou a amiga que me indicou para um trabalho e, já na primeira semana, queria transformar a minha v...
O ano de 2025 parecia que seria ótimo. Mas o seu final reservou medo e apreensão para este pobre e macambúzio escritor que vos escreve. No entanto, apesar de tudo, conseguimos superar e seguimos adiante. Apreensivos com o futuro e desejando que, finalmente, a vida transforme toda a melancolia em esperança. Esperança de dias melhores, esperança na saúde dos meus familiares e sucesso para mim, minha mãe, minha esposa, meus filhos e meus irmãos. Às vezes, é difícil manter o otimismo e acreditar que conseguirei cumprir todos os meus sonhos. Mas preciso seguir, ao menos para tentar. É um primeiro texto reflexivo, que demonstra a pessoa sentimental e duvidosa em que me tornei. Até uma próxima, pretenso e imaginário leitor!